|
|
|
Entrevista a
Cesário Cruz Nunes
|
 |
|
"A
vida de Fantocheiro 1946 - 1952 " |
|
Excertos de entrevista realizada em Caldas da
Rainha,
por Lúcia Serralheiro e alunos da E.P. da Benedita em 23 de Março de 1990 |
|
|
Cesário Cruz Nunes nasceu em Lisboa a 18 de Dezembro de 1925.
Em 1946, com cerca de 21 anos, desempregado, viu o já famoso fantocheiro
António Dias a trabalhar com os “robertos” na Feira da Ladra, em Lisboa,
e pensou: «aqui está uma coisa que talvez eu seja capaz de fazer. Mas
enganei-me!».
A sua primeira tentativa de trabalhar com a “palheta” falhou: «Eu
ateimava, ateimava, mas não saía nada... há que treinar todos os dias
para conseguir falar bem com ela!». |
O
passo seguinte foi a construção dos seus próprios fantoches. «Todos
os bonecos que usei foram feitos por mim, pelas minhas mão. Gosto de
todos eles porque são como meus filhos».
Começou então a trabalhar «a sério». Primeiro sozinho, nas ruas
de Lisboa ou em feiras na província. Mais tarde, é convidado por António
Dias para trabalharem juntos, pois o facto de serem dois permitia
representar peças com mais personagens |
Quanto ao repertório, Cesário Nunes refere «as peças que representei
já estavam todas feitas. São muito antigas, do tempo dos meus trisavós.
Nessa altura havia mais fantocheiros do que hoje».
Trabalhou em Lisboa, e na costa norte até à Figueira da Foz, bem como na
costa sul até ao Algarve, nas ruas, feiras, praias e «para
associações que pediam para crianças, como por exemplo a Colónia Balnear
do Século». |
Em
1952 foi trabalhar para a Câmara Municipal de Lisboa, e de seguida para
os Hospitais Civis de Lisboa. Por volta de 1970 entra para a Câmara
Municipal de Caldas da Rainha como canalizador, estabelecendo-se por
conta própria algum tempo depois.
Nunca deixou de apresentar o " Teatro Dom Roberto " sempre que
lhe era solicitado, o último registo que chegou até aos nossos dias, foi
de uma actuação em Alcobaça na praça D.Afonso Henriques no dia 23 de
Novembro de 1990 a convite da professora Lúcia Sarralheiro integrado nas
comemorações do centenário do Hospital de Alcobaça. |
|
 
 |
«Eu dentro da barraca a
trabalhar com Robertos, ria-me deles, via aquilo e chegava a pontos de
me rir.
Aquilo sai de mim, e olho para aquilo e penso que é outra coisa e que
não sou eu» |
|
«Tínhamos
que ter Licença para trabalhar. Mas mesmo com essa Licença nem sempre o
trabalho era fácil. (...) Um dia em Évora, via que as pessoas se estavam
a juntar, era tanta gente. Ficou a rua toda tapada, nem foi preciso um
boneco nem nada. Dei duas palhetadas, duas palavras e viu-se logo ali
tanta gente que comecei a meter os bonecos a trabalhar. Nem demorei
cinco minutos, apareceram logo cinco ou seis polícias de roda de mim e
pareciam que estavam a levar um criminoso. E lá vou eu para o Governo
Civil. Mostrei a Licença. “Aqui não pode trabalhar. Só lá para os
arredores”» |
|
«As autoridades não
tinham interesse em que as pessoas se divertissem... naquele tempo não
se podia falar, não se podia pôr defeitos no governo. Tínhamos que andar
a dormir, hoje podemos falar à vontade. Naquele tempo não se podia pôr
defeitos nas pessoas do governo» |
«É preciso treino, temos
que dar vida a um boneco, senão é tal e qual como estar ali quieto em
cima daquela mesa.
É preciso olhar para aquilo e ver uma coisa viva» |
|
«Em
Lisboa éramos quatro ou cinco nesse tempo. O António Dias que era muito
bom na palheta, mas não tão bom, no dar vida aos bonecos; o rapaz de
Cascais, João, e o Henrique que era um velhote. E havia uma mulher que
tinha bonecos e um macaco. Em Algés havia um velhote que só mostrava os
bonecos, não falava com a palheta, só a metia nos lábios e andava só na
Cruz Quebrada» |
|
|
Todo o espólio de
Cesário Nunes foi recentemente cedido à S.A.Marionetas - Teatro &
Bonecos pela professora Lúcia Serralheiro.
O nosso muito Obrigado. |
|
 |
|
|
|
|